Recentemente, o leitor Sousowski deixou-me um dos melhores comentários que já tive o prazer de ler aqui no site. Achei-o tão interessante que resolvi dar-lhe o destaque que merece, publicando-o sob a forma de post. Quem esteja a pensar viver em Cracóvia fica com uma imagem muitíssimo fidedigna do que poderá esperar desta cidade e quem cá viva ou tenha vivido certamente se identificará com tudo o que o Sousowki descreve.
Aqui fica:
“Existe algo em Cracóvia que após 4 anos não sei explicar. Um sentimento de negação de tudo o que
possa ser mau desta cidade.
Cracóvia é realmente uma cidade com um centro muito bonito, um belo castelo, uma cidade cheia de história e de eventos marcantes ao longo dos séculos, mas não passa a ser superior a muitas outras por isso, somente para os Cracovianos que a defendem cegamente e negam muitas das fraquezas que ela mantém.
Relativamente ao tópico, só há que dizer que tens toda a razão. Apesar de muito turistica, Cracóvia e de uma forma geral a Polónia tem um deficit em bons restaurantes com cozinha internacional. O único restaurante Português de Cracóvia, só tem de Português o nome e alguns pratos (infelizmente por vezes mal escritos), porque a cozinha nem é carne nem é peixe, é algo meio polaco…
O Brasileiro, nem vou comentar. Basta dizer que chego lá todo contente e digo “Bom dia”… ninguém falava português, sento-me e evidentemente com os meus amigos portugueses pedimos “Picanha”… Picanha? O que é isso… Penso que é suficiente…
Chineses nem pensar, indianos… hm, será mesmo comida indiana? Ia jurar que era comida polaca com uma mudança de nome.
Isto tudo tem algumas explicações, que passam pela ignorância ou desinteresse dos investidores e por alguma resistência a outros sabores por parte do polaco típico (raras excepções).
Alargando o tema, no fundo Kraków, como é denominada em polaco, sofre das opções que foram tomadas por quem segue ao leme desta cidade e da região da Małopolska (Pequena Polónia).
O investimento centrou-se no imediato e na satisfação de determinado target de “clientes”.
É impossível não reparar nas centenas de bares e “dancings” que enchem o centro da cidade e o Kazimierz (Bairro Judeu), as dezenas de Lojas que vendem Kebabs, as festas constantes, o álcool, sexo…
Cracóvia é uma cidade de consumo, que depois é usada e deitada fora, quer pelos turistas quer pelos muitos estudantes que para aqui se deslocam para frequentar alguma instituição universitária.
Cracóvia ganha com os euros deixados pelos turistas e pela mão de obra barata fornecida pelos estudantes, que trabalham por 200 ou 250 euros por mês, tem vida nocturna e actividades culturais constantes para animar os visitantes, mas perde muito… porque no fundo cada local é feito por quem lá está.
Nos arredores, ou não muito longe há Wieliczka, umas minas de sal que sem dúvida vale a pena visitar, há Oświęcim (Auschwitz), há Zakopane (umas montanhas a 100 Km) e outras cidades e locais históricos.
Cracóvia tem também a vantagem de estar um pouco perto de tudo o que a rodeia, tendo várias cidades e capitais europeias bastante perto. No entanto, o melhor é pensar em usar o avião, ou estar preparado para mudar os amortecedores ao carro se for de automóvel, ou levar um bom livro se usar o comboio, uma vez que além de estradas péssimas (sem dúvidas das piores de toda a Europa), os comboios andam como a lesma (excepção da ligação para Varsóvia).
Os serviços são em regra bastante maus, em muitos casos pouco superiores aos da Ucrânia ou Bielorussia, com uma burocracia de bradar aos céus, mesmo para um “portuga”, constratando com a amabilidade e empenho em ajudar do cidadão comum.
Defesa do consumidor, livro de reclamações, horas de encerramento, são coisas que um polaco nem
sequer conta com elas. Se tiverem que ir a algum serviço público, vão pelo menos meia hora antes do encerramento, senão já está fechado. Nos restaurantes recusam-se a servir, em pleno Wawel, por exemplo, 1 hora antes do fecho, uma vez que a cozinha já está lavadinha Reclamem! Sempre!
Os salários têm vindo a aumentar, mas os preços ainda mais, não sendo fácil para um polaco de classe média viver desafogado. A alimentação é mais barata que em Portugal, mas querendo qualidade, paga-se…
Os polacos são em regra muito simpáticos socialmente e é fácil fazer amizades, mas a língua é ainda uma barreira, principalmente para a faixa etária mais idosa. Saber o polaco básico é uma vantagem enorme.
O preço das propriedades em Cracóvia é desporporcional relativamente ao que a cidade oferece, mas isso claro é sempre discutível, se bem que agora a crise bate à porta e no último ano o valor dos apartamentos baixou em média 15% por metro quadrado. Aproveitem capitalistas!
O clima é mau no inverno, deprimente até, mas o verão e primavera são agradáveis. Excelentes meses para viajar e passear, com muitos locais verdes e paisagens simpáticas para apreciar.
Para terminar, e desculpem o livro, a segurança é um ponto forte. Sinto-me aqui muito mais seguro que em Lisboa ou outras cidades portuguesas, e isto é um factor sempre a ter em consideração.
Uma cidade em que é agradável viver, principalmente quando se é jovem, mas em que não se criando raízes não poderá rivalizar com outros países vizinhos, principalmente no que se refere à qualidade de vida.” - Sousowski
Uma vez mais obrigado ao Sousowski pelo contributo!