
Não é complicado, pois não senhores jornalistas?
Olá caros leitores!
Todos os anos por esta altura (mais semana, menos semana) costumo deixar por estas bandas um post que carinhosamente apelidei de “momento Anthímio de Azevedo” no qual me lamento das condições climatéricas da terra onde decidi viver.
Apesar de já estar habituado e de saber que caso estivesse na minha casa de Portugal sofreria muito mais do que estando na Polónia, há alturas em que os números ainda me deixam de boca aberta. Este é um desses momentos:
26 graus negativos, dass! Vinte e seis! Que eu me lembre, em anos mais recentes, só no mítico inverno de 2005/2006 se registaram temperaturas tão baixas como as que agora se fazem sentir e nessa altura ainda não vivia cá.
Claro que podia aqui mencionar que caso meta o aquecimento de casa no nível 3 de 5 fico com calor e que só me lembro da vaga de frio nos 3 minutos diários que passo a correr entre um qualquer edifício aquecido e o carro, mas giro giro é deixar-vos a imaginar o que é sentir vinte e seis graus negativos. VINTE E SEIS!!!!
PS – Pelo menos sempre temos máximas de -16ºC!

São estas as 16 seleções* que vão disputar o Euro 2012:
Polónia (país organizador)
Ucrânia (país organizador)
Alemanha
Rússia
Itália
França
Holanda
Suécia
Grécia
Inglaterra
Dinamarca
Espanha
Croácia
Rep. Checa
Irlanda
Portugal
Agora resta-me esperar que Portugal fique num grupo que seja jogado na Polónia e que eu consiga ir ver alguns jogos!
Portugueses que estejam a pensar visitar a Polónia… sejam bem-vindos!
*novo acordo ortográfico!
O post anterior em que vos contei o que é número 15 da rua Wielopole foi apenas um prelúdio a este.
Na noite passada, pelas 2h30 da manhã, as escadas que ligam o Łubu-dubu ao Kitsch ruíram e só por muita sorte não houve vítimas graves. Segundo a imprensa local registaram-se 11 feridos ligeiros e foram evacuadas aproximadamente 2000 pessoas, uma a uma, pelas janelas do edifício uma vez que as saídas de emergência são inexistentes.
A notícia não surpreende ninguém que conhecesse o sítio em questão pois qualquer leigo poderia facilmente aperceber-se do mau estado de conservação do edifício Já desde 2006, quando o conheci, se dizia que “um dia isto cai tudo” enquanto o chão e as escadas abanavam com o peso de milhares pessoas a dançar…
Desta vez caiu mesmo.
À primeira vista parece um edifício habitacional devoluto e os mais distraídos que por lá passem durante o dia estarão longe de imaginar que o número 15 da rua Wielopole em Cracóvia alberga alguns dos
locais mais míticos da noite Cracoviana.
Cada “apartamento” deste prédio sujo, feio, escuro e semi-abandonado no centro da cidade esconde uma discoteca diferente e todas elas têm em comum o facto de serem tão más que parecem irreais – entrar aqui é como viajar no tempo e no espaço para um qualquer local de entretenimento do “outro lado” da Cortina de Ferro. E isso, por estranho que pareça é uma das coisas que torna este local tão único e especial.
Quando a noite cai esta é invariavelmente a última paragem para centenas de noctívagos de Cracóvia. Enquanto os outros espaços da cidade fecham as portas, aqui a noite apenas está a começar e a festa dura até (literalmente) ao amanhecer.
Apesar de existirem mais clubes no prédio, aqueles que fazem parte da minha história em Cracóvia são apenas dois: o Łubu-dubu e o Kitsch.
O Łubu-dubu é uma espécie de discoteca temática dos anos 80 polacos e é normalmente aqui que a visita ao prédio se inicia.
Uma cerveja, dois dedos de conversa, uma voltinha pela pista de dança para ver como estão as coisas. Outra cerveja, mais dois dedos de conversa e outra visita à pista de dança. E o local começa a esvaziar.
Para onde vai toda a gente? Para casa? Não! Aparentemente todas as festas da cidade convergem para para o último andar, onde se encontra o famoso Kitsch.
Kitsch é realmente um nome apropriado ao que se encontra lá em cima. O chão é pegajoso, as casas de banho são inacreditavelmente sujas e molhadas, a decoração é horrível, o espaço é quente e mal ventilado mas… o conjunto é priceless!
Apesar do cenário surreal a diversão está garantida a cada visita. Dizem as más-línguas que é “O” spot para os engates de final de noite, mas isso não vou comentar – deixo ao critério dos visitantes. A verdade é que até ao amanhecer a pista está sempre cheia de jovens estudantes locais e também de muitos estrangeiros… ah, e obviamente o álcool é coisa que nunca falta ou não estivessemos nós na Polónia!
Talvez o segredo do sucesso destes sítios seja o facto de serem 100% genuínos, despretensiosos e conservarem a sua alma original, indiferentes ao mundo que os rodeia. Quando me recordar do tempo que vivi na Polónia haverá sempre um capítulo especial dedicado a estes espaços noturnos porque, como diria o senhor obeso da televisão, eu também já fui muito feliz no Wielopole 15. ![]()
Que a geração SMS confunda recorrentemente o uso de hífenes e escreva aberrações como "disses-te" em vez de "disseste" é algo a que infelizmente já estou habituado a ler nas caixas de comentários de qualquer jornal online; no entanto que erros da mesma dimensão sejam deixados durante longas horas em destaque na página principal do site de um dos jornais mais lidos pelos portugueses é algo que ainda me consegue surpreender negativamente.
Senhores d’A Bola: "Revoltasse" é o pretérito imperfeito do conjuntivo e serve para se usar em frases como "Se ele não se revoltasse por ter perdido seria um otário!". Obrigado pela atenção.
E qual a ligação deste post à Polónia? Bem, nenhuma das pessoas polacas que conheço que falam a língua de Camões cometem erros destes ao escrever!
Após cinco anos ainda não falo polaco fluentemente. Aliás ainda não falo polaco de todo. Quer dizer… falo sensivelmente o que falava ao fim do primeiro ano… o suficiente para não morrer à fome e para dizer umas coisas engraçadas às loirinhas, mas insuficiente para explicar ao mecânico os problemas do carro ou para falar com o médico que me tenta fazer um check-up geral…
Mas não desisto! A minha abordagem à questão “aprender polaco” é a mesma dos Sportinguistas (viram? letra maiúscula, muito respeitinho!) em relação a terem uma equipa que jogue bem à bola: para o ano é que é!
Hoje, devido à “história que não vai ser contada”, tive que deixar o carro em casa e ir para o emprego de tram (podem-lhe chamar
eléctrico ou metro, consoante a cidade de onde sejam naturais). Apesar de não o achar muito confortável, este meio de transporte é bastante rápido e eficaz pelo que o facto de ter que o utilizar de vez em quando não me causa grandes incómodos.
Normalmente tenho sempre alguns bilhetes na carteira, mas hoje acabaram-se e tive que comprar mais. Dirigi-me ao quiosque dos bilhetes e foi assim:
- Bom dia! 8 bilhetes “normais”, por favor!
- Não tenho!
Eu, inocentemente a pensar que o meu polaco estava avariado, lá repeti:
- Bilhetes… para o tram… “normais”…
- Não tenho!!! (já com cara de poucos amigos)
- Não tem?! Ok, obrigado.
E lá segui o meu caminho. Como para além do quiosque não existe mais nenhum sítio por perto onde se vendam bilhetes, a única opção era comprar directamente ao “senhor condutor/maquinista”. Assim que entrei no tram dirigi-me a ele e disse:
- Bom dia! Um bilhete “normal”, por favor!
- 2.50 “polónios”! (com ar de quem está a fazer um grande favor)
- Aqui tem – disse eu enquanto lhe meti 3 moedas de 1 na prateleira própria para a venda de bilhetes.
- 2.50 “polónios”!! – respondeu ele com o mesmo ar, e começou a conduzir sem me vender o bilhete.
Esperei em pé até à paragem seguinte e voltei a insistir:
- Só tenho 3 “polónios”! – enquanto olhava para um tabuleiro que ele tinha cheio moedas de 1 e de 0.5 PLN…
- Blabla bla blaaa!!! – respondeu-me ele irritado antes de começar a conduzir novamente; apesar de não entender uma única palavra tenho a certeza de que o homem estava a gritar que não dá trocos.
Desisti, peguei nas minhas moeditas e lá me sentei. Esperei até ao final da viagem que aparecesse um “pica” para me chatear e questionar o facto de eu estar a andar sem bilhete mas (in)felizmente não apareceu ninguém.
E é assim, meus amigos, que se compra um bilhete de eléctrico em Cracóvia!
Ao chegar ao emprego contei esta história aos meus colegas e o que me disseram é que isto é tudo normal! Antigamente os bilhetes comprados directamente aos maquinistas custavam 3 PLN ficando estes com os 0.5PLN de diferença como “bónus” pelo esforço; no entanto há alguns meses a empresa acabou com essa política passando o preço dos bilhetes a ser o mesmo independentemente do local onde são vendidos.
Como protesto, os maquinistas simplesmente recusam-se a dar trocos. E é tudo normal…